Nas últimas semanas muito tem-se falado sobre o cenário hídrico nacional, o qual impacta diretamente a estabilidade e a segurança do setor elétrico brasileiro (64,9% de toda a potência de geração de energia instalada provém da fonte hidráulica). Em vários canais foi comentado sobre um possível racionamento de energia (o que poderia afetar a produção da sua indústria). Mas isso realmente pode acontecer? A probabilidade é alta? Elaboramos uma análise objetiva e estratégica do cenário como um todo e publicamos aqui as expectativas e possibilidades de ação acerca do tema.
Qual o cenário atual?
O Brasil está atravessando uma das piores crises hídricas dos últimos 91 anos. Um dos reflexos dessa falta de chuva é uma perda de capacidade de geração de energia elétrica por parte das usinas hidráulicas. Com isso, ventila-se a possibilidade de um “racionamento” como medida para gestão da crise.
Com a falta de “chuva”, muitos relembram do racionamento que ocorreu em 2001, devido à crise hídrica. – A dificuldade de prever a segurança de suprimento de energia gera um cenário de instabilidade, incerteza para as indústrias e comércio.
No entanto, cabe destacar três grandes diferenças daquela época para hoje:
(1) atualmente, nossa capacidade instalada de geração é 233% maior (saltou de 74,9GW para 174,7GW)
(2) inclusão das fontes renováveis (com destaque para a Eólica, Solar e a Biomassa) e
(3) a expansão ocorrida nas linhas de transmissão, garantindo uma maior conexão e flexibilidade para a operação do sistema (passamos de 70 mil quilômetros para 164,8 mil quilômetros de linhas de transmissão.

O que pode ser feito?
O racionamento de energia é uma medida extrema e até hoje é descartada pelos principais representantes da ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), ONS (Operador Nacional do Sistema) e do MME (Ministério de Minas e Energia). Antes da prática de tal medida, várias ações podem ser tomadas (e já estão em andamento).
Do lado da Geração de Energia, é possível por exemplo:
- Acionamento das termelétricas: isso ajuda a preservar os reservatórios, impedindo que eles esvaziem, garantindo assim o nível atual ou superior no fim do período úmido;
- Importar energia da Argentina e do Uruguai (sim, é uma operação bem comum);
- Realizar leilões de emergência para contratar energia de usinas já disponíveis;
- Flexibilizar o uso múltiplo das águas (realocar potenciais hidráulicos destinados para consumo, transposição e transporte fluvial para a geração de energia elétrica).
Do lado do consumo, tornam-se necessárias ações como:
- Acionar o mecanismo de bandeira vermelha patamar II permanente: essa medida aumenta imediatamente o preço da energia e com isso avisa que a situação é de cautela, bem como promove a redução de consumo. Os valores arrecadados vão para a “conta bandeira” que custeia as termoelétricas;
- Incentivar o uso consciente da energia por meio de propagandas e anúncios;
- Aquisição de equipamentos mais eficientes, com menor consumo.
No fim das contas, teremos racionamento ou não?
Todas as medidas listadas acima em conjunto com a capacidade de geração e transmissão de energia elétrica atuais nos leva a afirmar que não teremos a necessidade do racionamento de energia elétrica. Estamos apenas em um período de cautela, onde precisamos gerir as fontes e otimizar a operação de curto prazo de modo a aumentar a segurança de suprimento energético.
Além destas soluções de curto prazo, para o médio prazo existe a previsão (concreta) da entrada de novas linhas de transmissão e novas usinas já para 2022, principalmente das fontes solar e eólica, além do grande volume previsto para o mercado de Geração Distribuída (as “fazendas solares” e os equipamentos fotovoltaicos instalados nos telhados”).
Vale ressaltar que é necessária uma boa condução na gestão desta crise, para que as medidas necessárias sejam tomadas no tempo adequado e com boa comunicação entre todos os agentes do setor elétrico, principalmente com os consumidores.
Julho de 2021.